Dona Julita
Dona Júlia já contava cinqüenta anos de idade e vida difícil. Era baixinha, forte, cabelos negros e lisos, pele índia crestada pelo sol da roça. Sua risada era tão estridente que às vezes parecia choro. Duas vezes por semana ela descia os dois quilômetros de estrada barrenta, levando sobre a cabeça a trouxa de roupas e um grosso cigarro de palha no canto da boca. Descia com uma trouxa limpa e subia com uma trouxa suja, sempre caminhando devagar com seus passinhos miúdos. Dona Júlia, ou Julita, como, como era conhecida, lavava e passava roupas para várias famílias na cidade. Ela tinha cinco filhas, quatro já eram moças feitas, a caçula ainda era criança de dez anos apenas. As quatro filhas de dona Júlia, eram moças cultas e estudiosas, todas haviam feito ou estavam fazendo magistério. Uma tia solteirona por parte de pai que era professora, custeava os estudos. As meninas cuidavam dos afazeres domésticos enquanto a mãe batia e quarava roupa na bica de bambu. O cheiro de roupa lavada impregnava todo o quintal, dona Júlia cantarolava malhada até o pescoço. Depois de lavar toda a roupa, chegava o momento de passar. Sem as facilidades modernas das casas com sua luz elétrica, dona Júlia usava o velho ferro de carvão, era preciso assoprar.... assoprar...enquanto a fumaça castigava os olhos. Passava, passava, até altas horas, à luz de uma precária lamparina.
Nelsinho e José eram os filhos, adolescentes de pouca conversa e muita indolência, sempre estavam juntos. Não ajudavam em casa e muito menos ao pai, na roça. As más línguas diziam que eles não seriam grande coisa na vida.
O marido de dona Júlia, seu Nelson, havia abandonado a família para viver com a amante. Todos os dias chegava cedo no sítio, ordenhava as mal tratadas vaquinhas e seguia para a cidade, sem sequer visitar os filhos. A família passava dificuldades. O casebre no qual viviam caia aos pedaços, duas paredes já tinham vindo a baixo. Entretanto, tudo era limpo e arrumado como se fosse novo. O dinheiro que dona Júlia ganhava lavando roupas servia para comprar comida, as meninas faziam serviços para a tia solteirona e com isso, garantiam alguns trocados para pequenas superficialidades. De resto, a vida era quase miserável, ainda assim dona Júlia cantava, com aquela vozinha sentida e estridente.
Aquela doce senhora nunca batera nos filhos, educava com doçura e autoridade. Falava do marido com um ar sem graça de tristeza, atribuía a si mesma a culpa pelo abandono. O tempo passou, dona Júlia repousa no cemitério da cidade, os filhos acharam seu lugar na vida, mas naquela solitária estrada ainda é possível avistar o pequeno vulto com a trouxa na cabeça.
Dona Júlia já contava cinqüenta anos de idade e vida difícil. Era baixinha, forte, cabelos negros e lisos, pele índia crestada pelo sol da roça. Sua risada era tão estridente que às vezes parecia choro. Duas vezes por semana ela descia os dois quilômetros de estrada barrenta, levando sobre a cabeça a trouxa de roupas e um grosso cigarro de palha no canto da boca. Descia com uma trouxa limpa e subia com uma trouxa suja, sempre caminhando devagar com seus passinhos miúdos. Dona Júlia, ou Julita, como, como era conhecida, lavava e passava roupas para várias famílias na cidade. Ela tinha cinco filhas, quatro já eram moças feitas, a caçula ainda era criança de dez anos apenas. As quatro filhas de dona Júlia, eram moças cultas e estudiosas, todas haviam feito ou estavam fazendo magistério. Uma tia solteirona por parte de pai que era professora, custeava os estudos. As meninas cuidavam dos afazeres domésticos enquanto a mãe batia e quarava roupa na bica de bambu. O cheiro de roupa lavada impregnava todo o quintal, dona Júlia cantarolava malhada até o pescoço. Depois de lavar toda a roupa, chegava o momento de passar. Sem as facilidades modernas das casas com sua luz elétrica, dona Júlia usava o velho ferro de carvão, era preciso assoprar.... assoprar...enquanto a fumaça castigava os olhos. Passava, passava, até altas horas, à luz de uma precária lamparina.
Nelsinho e José eram os filhos, adolescentes de pouca conversa e muita indolência, sempre estavam juntos. Não ajudavam em casa e muito menos ao pai, na roça. As más línguas diziam que eles não seriam grande coisa na vida.
O marido de dona Júlia, seu Nelson, havia abandonado a família para viver com a amante. Todos os dias chegava cedo no sítio, ordenhava as mal tratadas vaquinhas e seguia para a cidade, sem sequer visitar os filhos. A família passava dificuldades. O casebre no qual viviam caia aos pedaços, duas paredes já tinham vindo a baixo. Entretanto, tudo era limpo e arrumado como se fosse novo. O dinheiro que dona Júlia ganhava lavando roupas servia para comprar comida, as meninas faziam serviços para a tia solteirona e com isso, garantiam alguns trocados para pequenas superficialidades. De resto, a vida era quase miserável, ainda assim dona Júlia cantava, com aquela vozinha sentida e estridente.
Aquela doce senhora nunca batera nos filhos, educava com doçura e autoridade. Falava do marido com um ar sem graça de tristeza, atribuía a si mesma a culpa pelo abandono. O tempo passou, dona Júlia repousa no cemitério da cidade, os filhos acharam seu lugar na vida, mas naquela solitária estrada ainda é possível avistar o pequeno vulto com a trouxa na cabeça.
Dalva.
Comentários
eu sou música e adoro musica.
Devem ter muitas histórias semelhantes Brasil afora.
Beijos!