Postagens

Imagem
Dona Julita Dona Júlia já contava cinqüenta anos de idade e vida difícil. Era baixinha, forte, cabelos negros e lisos, pele índia crestada pelo sol da roça. Sua risada era tão estridente que às vezes parecia choro. Duas vezes por semana ela descia os dois quilômetros de estrada barrenta, levando sobre a cabeça a trouxa de roupas e um grosso cigarro de palha no canto da boca. Descia com uma trouxa limpa e subia com uma trouxa suja, sempre caminhando devagar com seus passinhos miúdos. Dona Júlia, ou Julita, como, como era conhecida, lavava e passava roupas para várias famílias na cidade. Ela tinha cinco filhas, quatro já eram moças feitas, a caçula ainda era criança de dez anos apenas. As quatro filhas de dona Júlia, eram moças cultas e estudiosas, todas haviam feito ou estavam fazendo magistério. Uma tia solteirona por parte de pai que era professora, custeava os estudos. As meninas cuidavam dos afazeres domésticos enquanto a mãe batia e quarava roupa na bica de bambu. O cheiro de roupa...
Imagem
A Cidade das Corujas Eram duas horas da madrugada. O vento soprava triste. Lá fora, atrás dos muros do cemitério, uma coruja piava lugubremente. O frio e o escuro pareciam penetrar as paredes, escoar pelas frestas, passar através das venezianas das janelas e subir pelas pernas da cama. Oswaldo fora mandado de São Paulo até aquele lugarejo para ensinar aos moradores como se precaverem contra a febre. A epidemia que se alastrara pelo país, ainda não havia chegado ali, logo, medidas preventivas eram de suma importância. O moço era recém – formado em Medicina e recebera uma ótima proposta do governo para atuar no interior. Para quem não possuía ainda uma clientela fixa a proposta era muito bem – vinda. Ele aceitara sem considerar a fundo as possíveis dificuldades, agora, tiritava de medo numa cama de pensão naquela bucólica cidadezinha. O pio da coruja lembrava o choro agonizante de uma criança ou o lamento torturante de uma mulher desesperada, isso unido ao som do vento, criava imagens so...

Cidade

Imagem
Nesta tarde a vida fervilha nas avenidas. No farol o garoto pobre e esquálido faz malabarismo para sobreviver. Na rua suja o homem triste e delicado sonha ser mulher. No barraco a mulher volta da lida e excomunga o seu dia. Mesmo assim a cidade exala inocência. Alguns abraçaram a realidade Outros compram sonhos na esquina Só a desesperança predomina. Dalva

Ninguém

Imagem
Ninguém...conhece essa angústia esse travo na língua essa dor que adormece o braço. Ninguém...percebe o embaraço de tamanha solidão na qual rola seco o coração aos pedaços. Ninguém...adivinha o lamento que escapa aos pouco da boca amarga amargo sentimento desvairado e louco. Amigo? Que é dele? Irmão...gastou-se o sangue e já tão rarefeito perdeu-se nas areias do deserto. Ninguém...pode me ouvir nem o mar. Dalva.

Tristeza

Imagem
No espaço aberto no qual escrevo mal traçadas linhas mosto de palavras mel de opulenta vinha mistura que fervilha néctar da discórdia gasosa harmonia licores a desatar no peito embriagador efeito de amores. No espaço aberto no qual escrevo trêmulas palavras sem alarde curo a ressaca de um dia triste de meias verdades. Dalva.